ANALISES

Trump e Xi investidores apostam nos dois lados da corrida da IA


Enquanto Donald Trump e Xi Jinping se preparam para se encontrar em Washington nesta semana (por volta de 24/9), o dinheiro dos investidores conta uma história diferente da retórica de confronto que domina o noticiário: bancos americanos estão captando recursos para startups chinesas de inteligência artificial, ao mesmo tempo em que capital chinês segue fluindo para empresas de tecnologia dos Estados Unidos.

Os números por trás da “aposta nos dois lados”

Segundo dados da LSEG citados pela Reuters, bancos de Wall Street atuaram como coordenadores em 19 operações de mercado de capitais de alta tecnologia chinesas neste ano, somando US$ 17,2 bilhões quase 30% de toda a emissão do setor. Do outro lado da equação, o valor de ações americanas em posse de investidores de Hong Kong e da China continental saltou 23% no último ano, ultrapassando US$ 750 bilhões.

Ainda mais expressivo: investidores chineses e de Hong Kong injetaram aproximadamente US$ 8,9 bilhões em rodadas de captação de startups americanas de IA até meados de setembro de 2026 ante apenas US$ 436 milhões em 2023, um salto de cerca de 20 vezes em pouco mais de dois anos, justamente no período em que os dois governos vêm tentando ativamente separar suas cadeias de tecnologia.

Quem está por trás dessas operações

Bancos como Goldman Sachs e Morgan Stanley trabalharam nas listagens em Hong Kong da MiniMax (desenvolvedora de IA), Montage Technology e Shanghai Iluvatar CoreX Semiconductor (fabricantes de chips). O JPMorgan foi um dos coordenadores da venda de ações de aproximadamente US$ 2,6 bilhões da Victory Giant Technology, fabricante de placas de circuito impresso para servidores de IA. Já a Zhongji Innolight, fabricante de componentes ópticos, captou US$ 6,8 bilhões em uma listagem em Hong Kong coordenada por Goldman Sachs, Morgan Stanley e Citigroup.

Bancos americanos também aparecem nos registros de acionistas de fabricantes de chips listados no STAR Market de Xangai o equivalente chinês da Nasdaq, participações que costumam refletir operações em nome de clientes e sugerem que esses bancos funcionam como canal para capital global entrar no setor chinês.

Por que os dois lados continuam apostando um no outro

Do ponto de vista do investidor, essa exposição mútua funciona como uma rede de segurança: cria, para ambos os lados, interesse em manter a relação estável o que ajuda a explicar por que as expectativas para o encontro entre Trump e Xi são moderadas quanto a rompimentos abruptos.

Segundo Fred Hu, fundador e presidente da gestora de private equity Primavera Capital Group, empresas e investidores dos dois países seguem mantendo conectividade e investindo um no outro, mesmo em meio a condições geopolíticas voláteis e a expectativa é que a cúpula ajude a injetar mais previsibilidade nessa relação financeira. Já James Buckley-Thorp, fundador e CEO da empresa de IA Atlian, resumiu de forma mais direta o papel de Wall Street: subscrever IPOs chinesas de tecnologia é uma forma de lucrar dos dois lados de uma guerra fria.

O cálculo por trás da aposta

A leitura de mercado, segundo analistas citados pela Reuters, é relativamente simples: tanto o investidor de varejo em Xangai comprando ações da Nvidia quanto o fundo de pensão em Hong Kong comprando a chinesa Zhipu estão fazendo a mesma aposta a de que os políticos, no fim das contas, não vão de fato “puxar o gatilho” de uma separação completa entre as duas maiores economias do mundo.

Essa conectividade financeira persiste apesar de Washington restringir a exportação de chips de ponta para a China e limitar investimento americano em setores sensíveis de IA chinesa há anos restrições que, no entanto, preveem uma exceção para valores mobiliários negociados publicamente, o que deixou margem para a atuação de Wall Street nesse boom de listagens chinesas de IA.

A conexão com o diálogo sobre segurança em IA

Este movimento de mercado ocorre no mesmo momento em que, como já cobrimos aqui, o secretário do Tesouro americano Scott Bessent avançou com a China na proposta de um novo mecanismo de notificação sobre incidentes de IA que atinjam nível de segurança nacional um sinal adicional de que, apesar da disputa por supremacia tecnológica, ambos os países buscam mecanismos para gerenciar o risco dessa rivalidade, em vez de deixá-la seguir sem nenhum canal de comunicação.

Por que isso importa para o investidor brasileiro

Mesmo sem exposição direta a esse fluxo específico de capital, o episódio funciona como termômetro para quem acompanha mercados emergentes: enquanto a conectividade financeira entre EUA e China permanecer intacta como os números aqui mostram, o apetite de risco global tende a se manter mais estável, o que costuma favorecer fluxo de capital estrangeiro para bolsas como a brasileira. Uma eventual ruptura dessa rede de investimento mútuo, por outro lado, tende a ser lida pelo mercado como sinal de escalada — com efeito de aversão a risco que historicamente também atinge ativos emergentes.

O que acompanhar

  • O desfecho do encontro entre Trump e Xi em Washington;
  • Se o volume de listagens chinesas de tecnologia coordenadas por bancos americanos mantém o ritmo do ano;
  • Qualquer sinalização de novas restrições ou afrouxamentos ao investimento cruzado entre os dois países no setor de IA.

Aviso: este conteúdo tem caráter informativo e educacional. Não constitui recomendação de investimento. Consulte um profissional certificado antes de tomar decisões financeiras.