O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, e o vice-primeiro-ministro chinês, He Lifeng, encerraram neste domingo (20/9), em Nova York, uma rodada de negociações que durou cerca de oito horas na sede do JPMorgan Chase. O ponto mais novo da conversa: o lado americano propôs formalmente um mecanismo de notificação de segurança envolvendo inteligência artificial, a ser levado à consideração dos presidentes Donald Trump e Xi Jinping na cúpula entre os dois marcada para esta quinta-feira, na Casa Branca.
O que foi proposto
Segundo Bessent, os dois lados discutiram a criação de um novo canal permanente batizado de “diálogo EUA-China sobre IA”, com ênfase particular em preocupações de segurança nacional. A ideia central é um sistema de notificação mútua para objetivos e ameaças em comum, cobrindo incidentes relacionados à IA que atinjam um nível considerado de segurança nacional.
Bessent descreveu o racional por trás da proposta de forma direta: assim como em qualquer atividade que atravessa fronteiras, migrar de opacidade para mais transparência entre a primeira e a segunda maiores potências de IA do mundo é algo que ele considera muito importante. As duas partes teriam concordado em se reunir novamente para dar continuidade ao tema.

Um tópico que já vinha sendo adiado
Trump e Xi jimping já haviam discutido a possibilidade de consultas sobre desenvolvimento de IA em maio deste ano, durante encontro em Pequim mas aquele fórum nunca chegou a ser formalizado. A proposta apresentada agora em Nova York é, portanto, uma tentativa de finalmente estruturar esse canal, dessa vez com um desenho mais concreto (o sistema de notificação) para ser avaliado diretamente pelos dois presidentes.
A reação chinesa ao formato específico proposto pelos americanos ainda não ficou clara: o comunicado oficial da agência estatal Xinhua apenas mencionou, de forma breve, que os dois lados haviam conversado sobre IA, descrevendo os encontros de forma mais ampla como trocas francas, aprofundadas e construtivas sobre temas centrais de comércio e economia incluindo a implementação de acordos fechados em rodadas anteriores de consultas comerciais e de investimento.
O que ficou de fora da mesa
O representante de Comércio dos EUA, Jamieson Greer, que também participou das conversas, afirmou que os controles de exportação americanos sobre chips avançados de IA e equipamentos de fabricação de semicondutores não entraram na pauta específica sobre o mecanismo de IA um tema sensível que segue separado, ao menos por ora, da discussão sobre segurança.
Também não houve atualização sobre outras pendências que já vinham do encontro de maio entre Trump e Xi jimping em Pequim: o compromisso chinês de aumentar em US$ 17 bilhões por ano as compras de produtos agrícolas americanos, a promessa de adquirir mais de 200 aeronaves da Boeing, e o fluxo de minerais críticos para empresas americanas que autoridades dos EUA classificam como ainda insuficiente, mesmo depois de Pequim ter se comprometido a flexibilizar restrições no acordo de trégua comercial do ano passado.

Por que isso interessa ao investidor brasileiro
Ainda que a pauta central seja IA, dois pontos conectam diretamente esse encontro ao Brasil:
- Compras agrícolas chinesas: o Brasil compete diretamente com os Estados Unidos pelo mercado chinês de soja e outros grãos. Qualquer avanço (ou recuo) na promessa de compras agrícolas americanas por parte da China tem efeito direto sobre a demanda por commodities brasileiras um aumento nas compras dos EUA tende a reduzir o espaço disponível para exportadores brasileiros nesse mercado, e vice-versa;
- Termômetro de tensão geopolítica global: encontros como este funcionam como indicador de temperatura da relação entre as duas maiores economias do mundo. Sinais de cooperação (como a proposta de diálogo sobre IA) tendem a reduzir a percepção geral de risco em mercados emergentes; sinais de impasse tendem a aumentá-la com reflexo em fluxo de capital estrangeiro para bolsas como a brasileira.
O que acompanhar
- O desfecho da cúpula entre Trump e Xi jimping, marcada para esta quinta-feira na Casa Branca;
- Se a China formaliza aceitação do mecanismo de notificação de IA proposto, ou apresenta contraproposta;
- Qualquer sinalização adicional sobre as compras agrícolas e de aeronaves ainda pendentes do acordo de maio.
