O que aconteceu nas últimas três eleições
Em outubro de 2014, mês da eleição que reconduziu Dilma Rousseff à Presidência, os papéis mais afetados foram Oi (OIBR4) e Santander (SANB11), com quedas de 25,29% e 15,67%, respectivamente, seguidos de perto por Petrobras (PETR4 e PETR3), segundo levantamento da Economatica/TC. Quatro anos depois, na eleição que levou Jair Bolsonaro à Presidência, Suzano (SUZB3) e Raia Drogasil (RADL3) lideraram as perdas de outubro de 2018, com quedas de 21,28% e 13,27%.
Já 2022 teve um comportamento peculiar: a Bolsa acumulou, entre janeiro e agosto daquele ano, a segunda maior alta pré-eleitoral da série histórica, com o Ibovespa subindo 11,4% no período atrás apenas de 2014, quando a alta no mesmo intervalo foi de quase 19%. Ou seja: ano eleitoral não é sinônimo automático de queda.
A volatilidade eleitoral, em números
Segundo dados da Economatica/TC, a volatilidade mais intensa em período pré-eleitoral nos últimos vinte anos (até 2022) ocorreu em 2002, quando chegou a 32% acompanhada, naquele caso, de queda de 6,78% no Ibovespa no mesmo intervalo. Já no período pós-eleitoral, 1998 registrou uma variação de 83%, a mais expressiva da série.
Um ponto que costuma escapar do debate: análises de mercado apontam que a volatilidade média da Bolsa brasileira em anos eleitorais não é, historicamente, muito diferente da volatilidade em anos não eleitorais. O que muda é a atenção que se dá a ela e o nervosismo com que o investidor pessoa física acompanha cada oscilação.

Por que a incerteza pesa mais do que o resultado em si
William Eid, diretor do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Getulio Vargas (FGV), resume um ponto central: não existe um padrão fixo de comportamento da Bolsa em anos eleitorais tudo depende do grau de incerteza que a disputa efetivamente carrega. Quando os principais candidatos têm propostas econômicas parecidas, ou quando o mercado já precificou o favorito como “aceitável”, a oscilação tende a ser menor. Quando há grande diferença entre as propostas ou um favorito que o mercado vê com desconfiança, a volatilidade tende a se intensificar.
Isso explica por que setores inteiros reagem de forma diferente dependendo de quem lidera as pesquisas: em 2022, por exemplo, ações do setor de educação (como Yduqs e Cogna) subiram em dias de fortalecimento da candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva, refletindo a expectativa do mercado sobre políticas específicas daquele governo não uma reação genérica de “medo da eleição”.
Nem todo ativo reage igual
Um dado pouco comentado: fundos imobiliários (FIIs) historicamente demonstram menor sensibilidade ao ciclo eleitoral do que a Bolsa como um todo. Análises comparando o IFIX (índice de fundos imobiliários) ao Ibovespa nos ciclos de 2014, 2018 e 2022 não encontraram um padrão consistente de aumento de volatilidade nos FIIs às vésperas do primeiro turno nos anos em que houve segundo turno, inclusive, a volatilidade do IFIX tendeu a recuar até a definição do pleito. Isso sugere um comportamento mais defensivo dessa classe de ativos diante da apreensão eleitoral, se comparado a ações.
O que isso significa para quem investe
Três conclusões práticas emergem do histórico:
- Volatilidade eleitoral é real, mas não uniforme ela se concentra nos ativos e setores mais sensíveis a políticas públicas específicas (estatais, saúde, educação, consumo), não no mercado como um todo de forma homogênea.
- O grau de incerteza importa mais que a data do calendário eleições com favoritos definidos e propostas convergentes tendem a gerar menos sobressalto do que disputas polarizadas e incertas.
- Diversificação supera tentativas de “acertar o timing” da eleição a recomendação recorrente entre analistas é manter uma carteira diversificada e evitar decisões precipitadas baseadas em picos de curto prazo motivados por pesquisas ou boatos de véspera.
O pano de fundo emocional
Para o investidor pessoa física, a oscilação de curto prazo de ativos de renda variável pode gerar ansiedade especialmente a tentação de tentar prever o próximo pico ou vale de preços com base no noticiário político do dia. A literatura acadêmica sobre risco político e mercado brasileiro (incluindo estudos que relacionam diretamente eleições presidenciais à volatilidade do Ibovespa) reforça algo que analistas repetem há décadas: paciência tende a compensar mais do que tentar cronometrar o mercado com base em pesquisas eleitorais.
Este conteúdo tem caráter informativo e educacional, com base em dados históricos públicos. Não constitui recomendação de investimento.
